Fernando Lúcio (*)

A trajetória dos grandes artistas é algo que desperta certa curiosidade, existe uma identidade na sua obra e também uma identidade na forma como o próprio artista chega ao seu patamar de vitória. Falando de escultores, faço questão de citar exemplos como Miguel Ângelo, Lorenzo Bernini, August Rodin e outros. Entre esses outros posso relatar centenas, todos com a sua peculiar modalidade de desenvolvimento técnico e artístico.

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Escola Pernambucana de Belas Artes

Grande mestre da escultura, o pernambucano Bibiano Silva deixou provas de um talento excepcional em esculturas e monumentos de bronze, e uma marca na Historia da Arte de Pernambuco, ao participar da fundação da Escola Pernambucana de Belas Artes, fechada pela ditadura militar sem explicação lógica.

Vejo na obra de Bibiano o toque ardente de uma personalidade forte. Como todos os grandes artistas, ele teve contatos com mestres que o levaram ao caminho da evolução técnica. Bibiano tinha uma grande fascinação por Miguel Ângelo. E podemos ver um pouco disto nas suas colossais esculturas no teto do Palácio da Justiça de Pernambuco, estruturas de ferro, cimento e pedra de gigantes figuras que são vistas a grande distancia, com olhares firmes, como na face do David de Miguel Angelo, em Florença.

Início — Bibiano Silva iniciou a sua trajetória escultórica quase como autodidata. Mantinha contatos com muitos escultores, entre eles, o escultor Rodolpho Bemacielli, um mestre da Escultura Brasileira, nascido em Guadalajara, no México, e naturalizado brasileiro, que ficou à frente da Escola Nacional de Belas Artes por vários anos. Os dois tinham grande afinidade e trocavam muitas idéias.

Bibiano Silva aglutinava em suas obras, tanto as formas matematicamente perfeitas dos cânones florentinos, como a suavidade e as solturas das camadas pouco retocadas de August Rodin. Os monumentos criados por Bibiano Silva estão em muitos locais do Brasil, pois ele não media distancias para a sua fascinante elaboração, que nascia em pouca quantidade de argila, ia crescendo indefinidamente, até chegar ao conceito fundamental da forma.

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Escultura O Jaú: Rio de Janeiro

Conheci um dos seus ajudantes, o Sr. Severino, a quem Bibiano devia o refinado amassamento do barro que iria passar por suas mãos, até a construção das formas. Esse senhor falava da intensidade de Bibiano Silva ante uma escultura em que trabalhava. Eu costumava interrogá-lo para sentir como era a forma de o mestre trabalhar. Ele, humildemente, dizia: “ele era calmo, alegre, sabia onde estava tudo que precisava para o seu trabalho, mas quando a escultura tomava volume, a responsabilidade o transformava”. Disse que Bibiano passava horas sem parar, dedicado ao trabalho, como se fosse responsável pela vida de uma pessoa, que era a sua obra.

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Rodolpho D’Albuquerque: Cemitério de Santo Amaro, Recife PE

Tumulares — Bibiano Silva trabalhou largamente em esculturas tumulares, muitas, ainda, não catalogadas. A maior parte, em mausoléus, está no Cemitério de Santo Amaro, no Recife. Embora pertencentes a variadas famílias, poderiam se catalogadas e se constituírem num grande acervo para um museu.

Poucos escultores no Brasil produziram como o mestre Bibiano Silva. Ele poderia estar sendo venerado pela sua capacidade de criação. Talvez tenha feito mais esculturas do que Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, ou mais que o Bemadelli. Infelizmente, o Brasil vem passando por uma desmotivação histórica tremenda, em que obras e mais obras de grandes artistas estão sendo colocadas nos armários dos museus. Hoje o sentido da grande arte se perdeu, a riqueza dos talentos brasileiros está por trás de uma cortina globalizada que já está mofada e, sem sombras de dúvida, vai ficar mais e mais opaca, enquanto as autoridades não a abrirem para que o povo veja a historia artística que há por trás dela.

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Busto de Getúlio Vargas: Palácio do Catete RJ

Grandeza — Bibiano Silva, grande escultor, aquele que em outras épocas poderia até ser chamado de Rodin Brasileiro, foi um técnico e criador de força fenomenal. Ajudou à criação da grande Escola de Belas Artes de Recife e lutou para que ela fosse reconhecida. Fez um busto do presidente Getúlio Vargas, que lhe tinha o maior respeito. Fez monumentos em todo Brasil e não representava, apenas, um pequeno espaço das artes em nossa terra, mas um portal para os nossos grandes mestres da arte.

Considero Bibiano Silva um valor intenso da escultura brasileira, que deve ser mais conhecido, reconhecido e presente nos livros de artes brasileiros. Devemos abrir os braços e os olhos para esta historia ainda não conhecida, olhos do amor pela grande arte e pela historia da verdade.

(*) Artista plástico e professor da Universidade Federal de Pernambuco